Publicado por: lucasvmbs | 12 de abril de 2013

O açougueiro colorado

Meu vô Darcy quase nunca sorria. Era um homem sério, do interior. Quando estava de bom humor fazia suas piadas, suas provocações, e nesses momentos, ria. Mas apenas “sorrir” era raro. Difícil alguma coisa lhe arrancar um sorriso.

Das poucas vezes que lembro ter visto um sorriso no seu rosto foi na praia. Ele sentado num canto da varanda tomando sua Brahma e no outro canto meu primo Ramiro e eu falando de futebol. Falando do Grêmio. Dois adolescentes (ou pré-adolescentes) debatendo o time. Quem era bom, quem era ruim, etc.

Ele ouvia o diálogo sorrindo. Nunca esqueço. Lá pelas tantas, nos interrompeu e disse algo como: “assim que o vô gosta. Os dois comportados, sem fazer folia, falando de futebol, bem sérios. É isso que o vô gosta de ver”.

Depois de um tempo percebi que, muito do que sou hoje, devo ao que me vô foi. O curioso é que estudei em colégio e faculdade particulares, dos mais renomados de Porto Alegre, e sou gremista, e devo muito disso ao meu avô, um simples açougueiro torcedor do Inter.

Nunca me esqueço do meu tio mais velho, Luís Paulo, num discurso emocionado de final de ano, homenageando o vô Darcy. Lá pelas tantas ele disse: “e o pai, açougueiro, que nunca nos ensinou a cortar uma carne”. Pelo contrário, fez questão de que todos estudassem. Apesar de ser um homem simples, nunca deixou faltar nada à família e criou 7 filhos educados, honestos, de caráter irretocável e, vale dizer, com diplomas de graduação. Meu pai, filho de açougueiro e dona de casa, se formou em duas faculdades na UFRGS e pagou Anchieta e ESPM para seus filhos. Graças ao seu próprio esforço, claro. Mas também um pouco graças ao berço em que nasceu. Também um pouco por causa dos valores que aprendeu. Se tenho o esclarecimento e a formação que tenho, um pouco disso devo sim a um simples açougueiro de Bom Jesus, nos altos da Serra Gaúcha.

E o mais incrível é que o vô era colorado. E não era daqueles que não ligava pra futebol: tinha sido até técnico do Juventude, clube amador de Bom Jesus. Gostava, entendia, era ligado. Mas nunca impôs seu coloradismo aos filhos. Simplesmente era colorado. Some isso a um avô materno gremista e muito querido por todos, pronto: meu pai virou gremista. Aliás, dos 7 filhos, 6 conheceram esse avô. Exatamente 6 se tornaram gremistas. E o vô Darcy lidava espantosamente bem com isso. Não demonstrava se importar nenhum pouco.

Já meu pai não fez exatamente a mesma coisa (ainda bem, hehe), e graças a ele sou o gremista que sou. E graças ao meu bisavô, que inspirou meu pai a se tornar gremista. Mas também, graças ao vô Darcy, por não ter interferido nessa escolha. Posso dizer, portanto, que sou gremista hoje também por causa de um colorado. Obrigado, vô! Hehe.

12 de abril: hoje o “tio darça” completaria mais um ano de vida. Seu aniversário me fez pensar nisso tudo. Não importa o que tu tens ou pra quem tu torce. Importa quem tu é, o que faz, o que pensa. Ele não era um mega-empresário milionário, mas é co-responsável por eu ter as condições de vida que tenho hoje. Ele tinha vários defeitos e fraquezas, como todos nós, mas não é difícil encontrar motivos para ter orgulho dele. Eu tenho. Tenho certeza que todos os filhos também.

E hoje saí na rua com minha camisa do Grêmio. Mesmo sendo colorado, tenho certeza que ele entendeu a homenagem. E, seja lá onde estiver, sorriu.

Abraço,

Lucas von.

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Responses

  1. Lucas, parabéns pelo texto e pela tua emocionante leitura da própria história. Sorte tua teres tido o seu Darci na tua vida. Fizeste muito bem em homenageá-lo, usando o que existe de mais sagrado e lindo – o manto tricolor.

  2. Muito bom Lucas. Ontem foi formatura do meu sobrinho Zeca, que foi concebido na nossa Vacaria, mas nasceu aqui no Tocantins. O avô dele, do qual herdou o nome, faleceu este ano. O Zeca Neto é gremista e o avô era colorado. Ele mudou de time por influência do tio (eu), juntamente com a força do time dos anos 90/Felipão. Enfim, ele vai aos jogos do imortal no consulado em Palmas homenageando o avô colorado.


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