Publicado por: lucasvmbs | 9 de agosto de 2012

Não tenho orgulho do Brasil nas Olimpíadas

O dominicano Felix Sanchez, aos prantos durante o Hino de seu país

Não torço contra o Brasil. Via de regra até torço para nossos conterrâneos nos jogos olímpicos. E, confesso, em casos específicos chego a ficar nervoso e vibrar com o resultado. Mas, mesmo com a conquista de alguma medalha de ouro, NUNCA sinto orgulho do Brasil ou de ser brasileiro nesses momentos. Nunca.

O mérito é todo dos atletas, seja lá qual for a modalidade. O Brasil não tem NADA a ver com isso. Nosso país sequer consegue oferecer saúde e educação à população, que dirá oportunidades para as pessoas desenvolverem seus talentos no esporte. Com certeza temos meninos brasileiros que nunca viram uma piscina na vida que poderiam ser os novos fenômenos olímpicos. Mas serão traficantes, engraxates, operários. Com muita sorte serão trabalhadores de classe média. E aí vão conhecer uma piscina, com uns 30 anos de idade.

Não precisamos ir tão longe. Eu, filho de pais de classe média, com passagem por colégio e faculdade particulares, nunca peguei um dardo na vida. Não faço ideia de como os caras conseguem saltar mais de 2m de altura, desconheço qualquer fundamento do arremesso de peso e, mesmo com 1,86m – o que é uma boa envergadura para a maioria dos esportes – não tenho boa noção de praticamente nenhum deles, fora o futebol. E se eu fosse um fenômeno em alguma dessas áreas? Jamais saberemos.

Um país que encontra dificuldades para sanar problemas BÁSICOS, que comprometem até mesmo a VIDA de sua população, nem teria como se voltar a um projeto espetacular de incentivo ao esporte. Deveria, mas é compreensível que não o faça. Compreensível, mas lamentável. Ou alguém acha que EUA e China lideram o ranking de medalhas porque a GENÉTICA de seu povo é diferenciada?

Os brasileiros que fazem bonito lá fora conseguem tais feitos APESAR do país em que nasceram. O Brasil faz de tudo pra eles não estarem lá, brilhando num pódio. Aliás, o Brasil já faz pouco para eles estarem alimentados, educados, sadios, VIVOS. Muito menos superando atletas de todas as outras nações. Mas temos verdadeiros guerreiros que superam essas probabilidades com muita força de vontade, talento e sorte. Uns sofrem mais, outros têm o privilégio de nascer num berço de exceção no país, mas todos têm um caminho árduo pela frente.

Depois que se consagram, chove patrocínio e sorrisos interesseiros. Mas até chegar lá, é muito perrengue. Condições de treino inadequadas, vários ônibus lotados pra chegar em casa, estrada esburacada, risco de assalto no trajeto, e por aí vai. Mas eles fazem tudo isso e superam nações que incentivam o esporte de forma competentíssima. Heróis. Tenho orgulho deles, do João, da Maria, mas não do Brasil. O mérito é deles. Só deles.

Quase morri torcendo pelas gurias do vôlei nas quartas-de-final contra a Rússia. Um jogo épico. Árbitro errando contra, jogo equilibrado, russas começando na frente, enfim, histórico. Mas por que eu torcia por elas? Talvez pelo senso de proximidade. Tínhamos muita coisa em comum. Todas elas falavam o mesmo idioma que eu, conheciam o Faustão, já cantaram “aí eu me afogo num copo de cerveja, que nela esteja minha solução” num videokê, enfim, por essas idiotices. O último saque da partida foi da Fernanda Garay, porto alegrense como eu. De repente já esbarrei com ela numa boate, ou pedi as horas pra ela no Parque da Redenção. Já é o suficiente para conquistarem minha torcida. O Brasil não tem nada a ver com isso.

E o Brasil não é o único. O dominicano Félix Sanchez conquistou o ouro nos 400m com barreiras e SE LAVOU em choro na hora da premiação. Soluçava. O estádio inteiro se comoveu com seu pranto e ficou de pé. Ele não chorava porque o Hino de seu país tocava no momento. Ele chorava POR ELE. Pela história dele. Pelas dificuldades que enfrentou para chegar lá. Chorou porque sua avó tinha morrido às vésperas da última Olimpíada, fazendo com que seu desempenho na competição fosse ruim. Chorou porque acabara de tirar uma foto dessa mesma avó de dentro do “maiô”. Chorou porque está com 35 anos, sabia que tinha que superar também a idade e que essa poderia ser sua última chance. Chorou por vários motivos. Mas garanto que não chorou por gratidão à República Dominicana. Não chorou aliviado por ter conseguido retribuir a tudo que seu país lhe proporcionou. Pois esse tudo provavelmente foi quase nada.

E aí, antes do jogo com a Rússia, em outro duelo da seleção feminina de vôlei, uma torcedora brasileira ostentava uma bandeira do Brasil com os dizeres: “DILMA SHOW TO MERKEL HOW TO DO IT”. Algo como “Dilma, mostre à Merkel como se faz”. Merkel é a chanceler alemã. O que será que a Dilma poderia ensinar a ela? Na Alemanha, até onde eu saiba, os impostos voltam integralmente ao povo. Saúde de primeira, educação a todos, ruas lindas e limpas, etc. Fiquei com vergonha da bandeira. O Brasil ganhou o jogo e fiquei pensando que tinha alguém morrendo naquele momento numa fila do SUS. E um lado meu ficou triste com a vitória brasileira. Tipo, “foda-se esse jogo imundo”.

Ah, mas somos bons no futebol”. Claro. Além de ser uma paixão nacional, o Brasil é um país populoso e abençoado com todos os biotipos possíveis de pessoas. Fatalmente isso se transforma em seleções competitivas. E isso prova que tínhamos potencial para ser uma potência olímpica. Mas falta todo o resto. No futebol somos bons porque qualquer latinha no chão já vira bola. Somos bons, mais uma vez, APESAR do Brasil.

Saudações “canarinhas”,

Lucas von.

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Responses

  1. Muito bom cara, embora eu não goste da forma que fala do país, temos que lembrar que isso tudo é culpa dos políticos, desvios, lavagens, em fim, tu sabe escrever, se puder me responda 🙂

  2. Perfeito o texto e o raciocínio! Mas uma ressalva, se me permite. Felix Sanchez nasceu em NY, foi criado em San Diego, CA e fez faculdade na USC, Los Angeles, CA. Ele decidiu representar a República Dominicana por orgulho e respeito a seus familiares. Mas provavelmente, se tivesse se criado neste país, nao seria nada próximo do que é hoje em relaçao ao esporte. Similar ao Brasil, eu diria, infelizmente! Abraçao!! (http://en.wikipedia.org/wiki/F%C3%A9lix_S%C3%A1nchez)

  3. Concordo contigo, e vou além.
    Nada contra os atletas que lutam por seus sonhos, mas desde as olimpíadas de Pequim, que abri os olhos(se é que se pode dizer isto de um japonês.. hehehe) a respeito deste “circo e pão”.
    Em todos estes eventos, o que se passa nos bastidores é o desrespeito aos direitos humanos em todas as partes do mundo.

    O mesmo se passa também em relação a Copa do Mundo de Futebol, até escrevi e gravei um podcast a este respeito, se puder citar é:
    http://www.aruah.com.br/a-copa-e-nossa/

    Abraços!


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