Publicado por: lucasvmbs | 22 de novembro de 2010

Todo mundo é vítima

Na maioria dos filmes e novelas algum personagem é construído para ser o grande vilão da trama. Normalmente esse cara é bem resolvido, esclarecido, bem apessoado, mas um grande filho da puta. Normalmente ele teria tudo pra ser um bom sujeito, mas simplesmente tem um caráter podre, uma índole horrível e uma maldade no coração. Esse é o vilão, que todos odeiam e torcem contra.

Mas na vida real não é bem assim que funciona. Quase todo mundo tem nuances de bom moço e de sacripantas, com doses maiores ou menores de cada extremidade, dependendo da pessoa. Quase ninguém é um total santo ou um total monstro.

E a imagem do vilão ou mocinho que fazemos das pessoas da vida real muito tem a ver com o contexto em que a situação nos é apresentada: se a gente for acompanhar um documentário no Animal Planet sobre a vida dos lépidos coelinhos da savana africana, vamos ver o filhotinho nascer, crescer, aprender a se virar sozinho, seremos cativados pelo bichinho, e quando aparecer uma leoa malvada querendo devorá-lo, torceremos muito para que ele escape. Mas se o documentário fosse sobre o pequeno e fofo leãozinho que nasceu, cresceu e está aprendendo a caçar sozinho, torceríamos muito para o matreiro felino devorar o maldito coelho safado.

Assisti esses dias àquele filme Última Parada – 174, que conta a história do rapaz que fez reféns num ônibus do Rio de Janeiro e acabou assassinando uma moça e foi assassinado em seguida. Os populares em volta da confusão queriam linchar o rapaz, com uma raiva até compreensível, pelo contexto e panorama que lhes foi apresentado. Mas vendo o filme, entendendo toda a história de vida daquele sujeito e até mesmo entendendo o contexto e os acontecimentos daquele dia na vida dele, o sentimento que dá é de pena, e não de raiva. Na verdade ele era uma vítima, e não um vilão.

E na vida tudo é assim. Na política, por exemplo, o pessoal da esquerda vocifera contra o pessoal da direita, e vice-versa. Alguns mais radicais se odeiam, brigam, discutem. Acham que são os mocinhos e os outros são os vilões. Mas na verdade os dois querem o bem geral. Os dois lados têm opiniões que visam aplicar um bem-estar e uma justiça social maiores. Mas cada um com visões distintas de como se chegar nesse fim. Ninguém é mau. No fundo, todos são bem intencionados. Comunistas e capitalistas convictos defendem o que julgam ser o MELHOR para todos.

Discussões de família, ou entre amigos, e até mesmo no trânsito, estádio de futebol, etc: tudo gira em torno de mal entendidos. Quase ninguém é vilão. A culpa às vezes é de uma palavra mal colocada, mal interpretada, um gesto infeliz ou uma atitude por reflexo, impensada. Outros desentendimentos começam porque alguma das partes teve uma criação diferente, com crenças diferentes, adota hábitos incompatíveis com outrem, e assim por diante. As brigas familiares são as melhores de se analisar isso. Normalmente as duas partes são vítimas, e não há vilões. Todo mundo se ama e quer o bem do outro, mas alguma merda acontece e o pau quebra. O rapaz do 174 queria ser rapper, também queria o bem de todos, a começar por ele. Não gostava de ser bandido. Mas algumas merdas aconteceram, e ele acabou naquele ônibus naquela tarde/noite.

O filme Tropa de Elite 2, do mesmo diretor do Última Parada – 174, mostra muito bem isso. Dois caras que têm tudo pra serem inimigos, um intelectual de esquerda e um comandante geral do BOPE com ideais quase fascistas, acabam virando amigos, mesmo com visões completamente diversas, simplesmente pelo fato de serem dois caras bem intencionados, que se deparam, praticamente sozinhos, com uma guerra contra toda uma merda maior que acontece no cenário do filme (e do Brasil).

Claro que não sou idiota. Sei que muita gente é vítima total da vida e consegue manter uma conduta regrada e honesta. Verdadeiros heróis. Claro que também tem muito babaca que nasceu em belas famílias e acabou se tornando um sacana. Mas são exceções, e mesmo assim, nesse segundo caso, esse cara provavelmente deve ser vítima de algum desvio na criação, ou trauma de infância, ou simplesmente “desfavorecimento cerebral” (burro). Mas em algum ponto ele provavelmente será vítima, antes de ser vilão.

E é claro que se entro em casa armado e vejo um cara estuprando e matando minha mãe e minha irmã dou uns belos tiros no vagabundo e não vou querer saber qual sua história de vida e o que o levou a chegar até lá. Mas é que sou uma vítima do instinto primitivo humano, que eventualmente tem seu lado selvagem ativado.

E sei também que não existem coelhos na savana africana, e se você não se ligou nisso, é uma vítima do péssimo ensino brasileiro.

Anúncios

Responses

  1. Ué, não há coelhinhos na África? E como fica o Coelho da Páscoa???rsrs

    Saindo da brincadeira idiota acima, o texto nos possibilita deiverso pensamentos, mas não há para negar que p ser humano tem dentro de si a maldade(ou por instinto de sobrevivência, ou por maldade mesmo, e aí há os desvios psicológicos a serem analisados).
    Seres Humanos bons(aquele que segura seus instintos de maldade dentro de uma racionalidade, ou mesmo espiritualidade), e Seres Humanos maus fazem parte da Espécie chamada Humana.
    Cada contexto poderá a nos levar a avaliar quem é a vítima ou o vilão em cada situação.
    A DOR é um dos caminhos para chegarmos a esta avaliação.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: