Publicado por: lucasvmbs | 9 de setembro de 2010

A glória da derrota

Estava eu vendo televisão madrugada afora esses dias, e por acaso esbarrei no filme “2 Filhos de Francisco”. Faltavam uns 20 minutos pro fim. Fiquei assistindo. Já tinha visto o filme, mas revi o final, pois sabia que estava próximo de chegar ao desfecho da trama, ao momento da glória e da volta por cima. Ah, é legal. Os caras passaram fome a vida inteira, tiveram que lidar com uma morte prematura na família, jogaram todas suas fichas (literalmente) numa tentativa ousada (e até improvável) de sucesso, e venceram. É uma bela história, sem dúvidas. E com um “gran finale”

Mas o que torna essa história interessante – e talvez todas as histórias bonitas – são os momentos de dificuldade. Com todo respeito ao Fiuk: um filme contando a trajetória da banda dele não seria legal. O cara é filho do Fábio Júnior e virou ator da Malhação. Acho que se ele tocasse vuvuzela ia ter fã clube, público bom nos shows e tudo mais. Não tinha erro, ele já nasceu com o sucesso da sua banda engatilhado. E mesmo que a banda acabe, morrer de fome ele não vai. Já a história de Zezé di Camargo e Luciano virou filme justamente porque tudo indicava que eles não tinham boas perspectivas. É esse o grande ponto.

Só existe escuro porque existe o claro. Se fosse noite sempre, a gente não chamaria aquilo de escuridão, pois aquilo seria o normal, o de sempre. Se todo mundo fosse igual à Gisele Bündchen e ao Tom cruise, ninguém seria bonito, nem feio. Um só existe graças ao outro. A vitória só é magnífica por causa da derrota. Se teu time fosse Campeão Mundial todos os anos, lá pelo 7º título consecutivo já ia ser meio chato, passível de nem se comemorar, talvez. Mas todos os anos de derrotas acumuladas são os responsáveis pela explosão de alegria e pelo extravasamento total na vitória. Já diziam Los Hermanos: “quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar”.

Nos meus 25 anos de gremista, foram poucas vezes que me arrepiei como num desses últimos jogos, contra o Guarani. A torcida gremista vive um dos piores momentos desses últimos tempos: time próximo à Zona do Rebaixamento no Brasileiro e Inter atual Bicampeão da América, igualando nosso feito em apenas 4 anos. Todo gremista anda cabisbaixo, triste, desconfiado, ferido. É inevitável. Pois nesse jogo, no péssimo horário das 19h30min, chovendo forte, com o time mal, 30 mil torcedores foram empurrar a equipe. Até aí tudo bem. Fui na Geral. De repente, perto do início do jogo, os geraldinos explodiram num canto empolgante, todos pulando, o estádio veio junto, me arrepiei. Aquele povo dizendo que não abandonou o Grêmio, mostrando que estava lá, mesmo nesse momento horroroso. Isso pra mim foi mais emocionante do que muita vitória. Isso renderá lágrimas no dia que meu Tricolor voltar a ser vitorioso. São por causa desses dias que as conquistas purificam a alma.

O mesmo vale para o nosso rival, o Inter. Em 2006, quando saíram de um jejum gigantesco de títulos, a coloradagem foi ao delírio, e com toda a razão. É assim que funciona. Agora estão repetindo as façanhas e o ímpeto e delírio nas comemorações já não são mais os mesmos, dá pra sentir. É natural.

Esse texto não é uma apologia ao fracasso. Não estou dizendo para sermos derrotistas, perder emprego, fazer tudo errado e achar isso bonito. Claro que não. Bem pelo contrário. Estou dizendo que os momentos ruins podem servir de motivação pra sairmos da zona de conforto e darmos a volta por cima, com maior ímpeto e gana.

Tenho um amigo, colega de banda e ex-colega de trabalho, que é designer, artista plástico e poeta: o Pedro Gutierres. Adoro uma frase dele que diz o seguinte: “o que me consola é o amanhã”. É por aí. Não só no futebol ou em aspirantes a duplas sertanejas. É pra tudo. É pra vida.

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Responses

  1. Em poucas e belas palavras….resumou o que eu sinto pelo GREMIO…..é isso ai as nossas derrotas, eu nasci vendo que voltaram a ser vitorias e por isso que nao paro de Gritar…VAMOS GREMIO……..

  2. Belas palavras! Fiquei arrepiada, quase chorei! Queria eu morar em Poa e poder estar lá, na trocida, na chuva, cantando e vibrando com meu time. Mas sei que estamos bem representados e somos a torcida mais fanática do Brasil! Tenho ORGULHO de ser Tricolor! No Z4 ou no G4 meu amor é Imortal! Saudações Tricolores!

  3. Na Verdade o Ser Humano valoriza muito mais as Vitórias na Vida quando há dificuldades, barreiras, preconceitos,etc.
    Ganhar tudo de bandeja é fácil, e perde um pouco, ou muito o valor.
    Este bicampeonato da América por parte do nosso rival por exemplo perdeu muito o valor, pois foi em cima de um São Paulo arrebentado, e de um Chivas, que cá entre nós, nem deveria participar da Libertadores.
    E falo isso sem inveja, afinal as comemorações do BI do Inter duraram apenas alguns dias, comprovando assim que até mesmo a torcida do Inter sabe que não tem muito valor de luta, garra, valentia, etc.
    Por sinal, eles só ganharam Libertadores dentro de casa, nunca fora.
    Ganhariam fora se pegassem um Estudiantes? Um Boca? Um time Colombiano chato?


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