Publicado por: lucasvmbs | 25 de julho de 2013

O que realmente importa

Esse texto é meio clichê. Na teoria, todos sabem o que realmente importa. Mas vamos lá. Adoro clichês.

Minha vó era motivo de piada por não querer incomodar. Pra ela tudo tava bom. Qualquer cantinho pra dormir tava excelente, qualquer coisa pra comer tava ótimo. Podia ficar esperando na rodoviária, podia ficar esperando sozinha, podia não esperar e ir de táxi. Tanto faz, ela só não queria incomodar. Filhos e netos se divertiam com isso. “Hoje a mãe/vó vai dormir na casinha do cachorro pra não incomodar“.

Libertadores 2003, quartas de final. Independiente de Medellin 2 x 1 Grêmio, na Colômbia. A vó Célia, moradora da gelada Bom Jesus/RS, por algum motivo estava em Porto Alegre nesse dia. Por algum motivo estava na minha casa. Só nós dois. Eu, fanático desde sempre, nervoso com o jogo. A vó, gremista desde sempre, acompanhando a partida comigo pela TV. Sem um pingo do meu nervosismo, mas com um interesse aparentemente grande pelo evento. Comentava, perguntava, até xingava. Celinha copera y peleadora.

Lá pelas tantas o Grêmio começou a perder o jogo e a classificação, e meu humor, que já estava na altura do joelho, desceu para o dedão do pé e fazia força para invadir o apartamento do vizinho de baixo. Nessas horas, os fanáticos sabem, qualquer comentário meramente maldoso, idiota ou inconveniente nos irrita profundamente. E os fanáticos sabem também que, nessas horas, qualquer comentário é potencialmente maldoso, idiota ou inconveniente. Aí os jogadores do Grêmio começaram a chutar algumas bolas por cima do gol adversário e a vó me perguntou, várias vezes: “Lucas, por que eles não chutam DENTRO do gol? Eles não sabem que é ali que tem que chutar?

Ela perguntava séria, não estava brincando. Queria realmente saber o motivo pelo qual eles não faziam o que lhe parecia tão óbvio. Pensando agora é engraçado, mas no dia me irritava. “Maldita hora em que a vó foi parar aqui em casa nesse dia, nessa hora”. Tudo que eu queria era ver meu jogo quieto e amargar minha eliminação sozinho. Ou com alguém que me entendesse naquele momento. Alguém que entendesse de futebol. Entendesse, pelo menos, minha irritação à flor da pele.

Dez anos se passaram. Quarta-feira, 24/07/13, acordo com um soco no estômago: minha irmã me liga aos prantos dizendo que a vó Célia faleceu. Do nada. Inesperadamente. Infarto fulminante. E agora? Quem vai me ligar no meu aniversário dizendo que tá rezando por mim? Quem vai rezar por mim noutros momentos importantes da minha vida? “Hey, Lucas, tu não é agnóstico?” Sou sim. Mas a reza da Celinha funcionava, acreditem em mim.

No caminho até Bom Jesus fui pensando: “imagina se a vó liga para todos os irmãos, filhos, netos, demais parentes e amigos e diz que tá carente”. Pede para que todos compareçam na sua casa para um almoço. Ela só quer um abraço de cada um. Em plena quarta-feira. Imagino as respostas. “Como assim, mãe? Não posso largar tudo hoje do nada. Tenho que trabalhar, tenho que blá blá blá, tenho que bló bló bló“. Eu diria que talvez 3 convocados fossem, num cálculo deveras otimista. Talvez ninguém fosse. Mas aí a vó morreu. E aí todo mundo foi. Morando longe, morando perto, com filhos, com trabalho, com chefe, com uma vida toda pra administrar. Todos foram. Deram seu jeito. O ser humano é engraçado. Pra dar um abraço na Celinha viva a comoção não seria minimamente semelhante. E o incrível é que dar atenção e valor à pessoa em vida é o que mais importa. Somos estranhos.

E justo a Dona Célia, que não gostava de incomodar, se foi justamente no dia da Final da Libertadores. Talvez pra nos mostrar o que realmente importa. Ninguém estava preocupado com a Final da Libertadores. Estávamos, finalmente, preocupados com o que realmente importa. Inclusive já sentindo saudades do que realmente importa.

“Imagina se é o Grêmio na Final da Libertadores. E imagina se o Grêmio perde essa Final de Libertadores”. Por mais fanático que eu seja, lhes digo: pouco me importaria. Claro que me importo com o Grêmio. Ia olhar o resultado do jogo no celular. Óbvio. Amo o clube. Mas é diferente. Não se compara. E parece que a gente precisa tomar esses tapas na cara da vida pra ver o óbvio, o que realmente importa. E o que realmente importava ontem, pra mim, não era um jogo de futebol. Por mais importante que ele fosse. Por mais que o Grêmio estivesse jogando. Seria importante pra mim, isso sim, se o Grêmio estivesse jogando e a vó Célia estivesse ao meu lado perguntando: “Lucas, por que eles não chutam DENTRO do gol? Eles não sabem que é ali que tem que chutar?

A vida é um baita clichê. Óbvio e simples. Mas, incrivelmente, às vezes não vemos o que realmente importa. Ou até vemos e sabemos exatamente o que temos que fazer, mas chutamos pra fora, sei lá por quê. Sei lá por quê, vó.

Vai com Deus, Celinha.

Abraço,

Lucas.

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Publicado por: lucasvmbs | 12 de abril de 2013

O açougueiro colorado

Meu vô Darcy quase nunca sorria. Era um homem sério, do interior. Quando estava de bom humor fazia suas piadas, suas provocações, e nesses momentos, ria. Mas apenas “sorrir” era raro. Difícil alguma coisa lhe arrancar um sorriso.

Das poucas vezes que lembro ter visto um sorriso no seu rosto foi na praia. Ele sentado num canto da varanda tomando sua Brahma e no outro canto meu primo Ramiro e eu falando de futebol. Falando do Grêmio. Dois adolescentes (ou pré-adolescentes) debatendo o time. Quem era bom, quem era ruim, etc.

Ele ouvia o diálogo sorrindo. Nunca esqueço. Lá pelas tantas, nos interrompeu e disse algo como: “assim que o vô gosta. Os dois comportados, sem fazer folia, falando de futebol, bem sérios. É isso que o vô gosta de ver”.

Depois de um tempo percebi que, muito do que sou hoje, devo ao que me vô foi. O curioso é que estudei em colégio e faculdade particulares, dos mais renomados de Porto Alegre, e sou gremista, e devo muito disso ao meu avô, um simples açougueiro torcedor do Inter.

Nunca me esqueço do meu tio mais velho, Luís Paulo, num discurso emocionado de final de ano, homenageando o vô Darcy. Lá pelas tantas ele disse: “e o pai, açougueiro, que nunca nos ensinou a cortar uma carne”. Pelo contrário, fez questão de que todos estudassem. Apesar de ser um homem simples, nunca deixou faltar nada à família e criou 7 filhos educados, honestos, de caráter irretocável e, vale dizer, com diplomas de graduação. Meu pai, filho de açougueiro e dona de casa, se formou em duas faculdades na UFRGS e pagou Anchieta e ESPM para seus filhos. Graças ao seu próprio esforço, claro. Mas também um pouco graças ao berço em que nasceu. Também um pouco por causa dos valores que aprendeu. Se tenho o esclarecimento e a formação que tenho, um pouco disso devo sim a um simples açougueiro de Bom Jesus, nos altos da Serra Gaúcha.

E o mais incrível é que o vô era colorado. E não era daqueles que não ligava pra futebol: tinha sido até técnico do Juventude, clube amador de Bom Jesus. Gostava, entendia, era ligado. Mas nunca impôs seu coloradismo aos filhos. Simplesmente era colorado. Some isso a um avô materno gremista e muito querido por todos, pronto: meu pai virou gremista. Aliás, dos 7 filhos, 6 conheceram esse avô. Exatamente 6 se tornaram gremistas. E o vô Darcy lidava espantosamente bem com isso. Não demonstrava se importar nenhum pouco.

Já meu pai não fez exatamente a mesma coisa (ainda bem, hehe), e graças a ele sou o gremista que sou. E graças ao meu bisavô, que inspirou meu pai a se tornar gremista. Mas também, graças ao vô Darcy, por não ter interferido nessa escolha. Posso dizer, portanto, que sou gremista hoje também por causa de um colorado. Obrigado, vô! Hehe.

12 de abril: hoje o “tio darça” completaria mais um ano de vida. Seu aniversário me fez pensar nisso tudo. Não importa o que tu tens ou pra quem tu torce. Importa quem tu é, o que faz, o que pensa. Ele não era um mega-empresário milionário, mas é co-responsável por eu ter as condições de vida que tenho hoje. Ele tinha vários defeitos e fraquezas, como todos nós, mas não é difícil encontrar motivos para ter orgulho dele. Eu tenho. Tenho certeza que todos os filhos também.

E hoje saí na rua com minha camisa do Grêmio. Mesmo sendo colorado, tenho certeza que ele entendeu a homenagem. E, seja lá onde estiver, sorriu.

Abraço,

Lucas von.

Publicado por: lucasvmbs | 8 de março de 2013

O goleiro Bruno é o Brasil

Vamos ignorar aqui toda a parte humana que envolve matar uma pessoa. Vamos ignorar questões de índole, compaixão, blá blá blá. Sejamos frios e práticos. Mesmo sob essa ótica simplista, podemos concluir: como o Bruno foi BURRO no caso Eliza Samúdio. O cara tinha uma amante que o incomodava (sobretudo quando engravidou) e, pra dar fim ao incômodo, achou “mais fácil” matá-la. É a burrice de quem não pensa 2cm à frente. Era óbvio que ia dar merda. Era evidente que uma morte não seria ocultada e esquecida tal qual uma sujeirinha que é varrida pra debaixo do tapete.

O espertalhão arruinou sua própria vida. Uma vida boa e promissora. Ficará 22 anos na cadeia aquele que era um dos melhores goleiros do país, jogando num dos maiores clubes do Brasil e com boas chances inclusive de disputar a Copa do Mundo pela Seleção. Longe de ser um desgraçado com uma vidinha destroçada que não tinha nada a perder. É muita burrice.

E o brasileiro médio, ainda que condene a atitude do ex-goleiro por questões humanas, no quesito burrice não é muito diferente. Nosso povo joga lixo nas ruas, por exemplo. Aquele papel de picolé, aquela latinha de cerveja, enfim, aquele ESTORVO, é uma espécie de Eliza Samúdio em forma de lixo. O pensamento burro e limitado das pessoas faz com que seu objetivo simplista e imediatista seja apenas de “se livrar” daquele incômodo. E então elas jogam suas elizinhas pela janela do carro ou nas calçadas. E, assim como fez Bruno, não medem as consequências. Dias depois começa a chover e alaga tudo. Aí o espertalhão que joga lixo nas ruas chora copiosamente porque a água invadiu sua casa e o fez perder tudo. Ou se irrita porque uma avenida está interditada.

Falei do lixo porque o POVO como um todo tem muita culpa de muita coisa. Mas aquele que talvez seja o maior CÂNCER do Brasil se chama “corrupção”, e aí não posso deixar de falar dos nossos amigos políticos.

Casos famosos como o do “Mensalão” são apenas a ponta do iceberg. O que faz a corrupção mesmo não são esses milhões de reais. São os 400 reais que um prefeitinho de uma cidadela superfaturou aqui, os 1.200 que o vereadorzinho do município vizinho desviou acolá, e por aí vai. Qual é a Eliza, ou melhor, o “problema” dos políticos? Ganhar mais dinheiro. Como eles resolvem isso? Com corrupção. Ao modo Bruno, sem medir consequências. Acham que “ah, se eu pegar 700 reais aqui não vai mudar nada pro país”. E assim todos vão superfaturando, desviando, roubando. E esse rombo na conta da nação fica gigantesco. E esse rombo impede que mais escolas sejam construídas, bem como hospitais, delegacias, etc.

E aí um menino que nasceu numa comunidade conturbada não conseguiu ir à escola, pois não tinha nenhuma por perto. Não conheceu o pai, pois sua cidade não tem segurança: morreu com bala perdida. Sua mãe é alcoólatra e bate nele com um pedaço de pau. Esse menino, sem muita escolha, acaba traçando um caminho torto. Vira bandido. Se tivesse estudado, talvez vislumbrasse perspectivas melhores. Mas o deputado estadual pegou o dinheiro da escola pra comprar um apartamento novo. E aí, numa noite qualquer, esse rapaz se arma até os dentes e vai “trabalhar”. Aborda uma moça, ela reage, ele puxa o gatilho. Morreu. Morreu a filha do nobre deputado. Que pena. Agora não adianta chorar, deputado.

Agora não adianta chorar, Bruno. Agora não adianta chorar, Brasil.

 

Lucas von.

Publicado por: lucasvmbs | 4 de dezembro de 2012

O velho paletó de Einstein

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Einstein era um gênio. Mas ele não entendia muito de “marketing pessoal”.

Dizem que ele tinha um armário repleto de roupas IGUAIS. Saía sempre vestido da mesma forma, tal qual um personagem do Maurício de Souza. O motivo: teria calculado quantos minutos perderia por dia escolhendo a roupa que iria vestir. Chegou à conclusão de que perderia ANOS de sua vida escolhendo roupas. Decidiu banir essa tarefa de sua vida. Roupas iguais foi a solução: ótimo para ganhar tempo. Péssimo para sua auto-imagem.

Claro que a história é exagerada. Verídica ou não, é um tanto romântica. Algumas convenções sociais – como se vestir de maneira apresentável – ainda que sejam meras convenções, são necessárias para um bom convívio e até mesmo para que o sujeito consiga APROVAÇÃO social: seja amorosa, profissional, etc. Sei disso. Não estou dizendo que “quem se arruma é idiota” ou algo do tipo. A “crítica” aqui, se é que existe uma, é ao contexto social, ao todo, e não ao indivíduo isoladamente.

Mas a história do Einstein que me motivou a escrever esse texto é outra. E vai até um pouco ao encontro dessa primeira: diz respeito ao pouco caso que fazia em relação às suas vestimentas.

Reza a lenda que Einstein teria se mudado de cidade. Logo que chegou ao novo lar um amigo resolveu visitá-lo. Ele foi então à estação de trem aguardar a chegada do tal amigo. Quando este chegou, de cara já disparou: “- Pô, Albert. Você continua usando esse paletó velho e puído. Não tens vergonha?” Ao que Einstein respondeu: “- Não tem importância. Aqui ninguém me conhece”.

Alguns anos depois, o mesmo amigo resolveu visitá-lo novamente. E lá estava Einstein o aguardando mais uma vez na estação de trem. Ao chegar, o visitante repara que o velho amigo não mudara em nada seu visual e repete a crítica: “- O mesmo paletó velho e puído, meu amigo?” Einstein então rebate: “- Não tem importância. Aqui todo mundo me conhece”.

Genial.

A mensagem pra mim é clara: o que realmente importa é o que está dentro do paletó, embora muitas vezes esqueçamos disso. Embora muitas vezes façamos até mesmo alguns pré-julgamentos apenas pelo “paletó” de outrem. E esse paletó pode ser uma cor de pele, uma preferência musical ou sexual, uma classe social, um time de futebol, uma nacionalidade, um sexo, uma opinião fora de contexto, e assim por diante. Claro que as críticas muitas vezes podem ser bem-vindas e até mesmo benéficas ao criticado. Mas, assim como fizera o amigo de Albert Einstein, ao menos tente conhecer essa pessoa razoavelmente bem antes de disparar contra seu paletó puído.

Ele não entendia muito de “marketing pessoal”. Mas Einstein era um gênio.

 

Abs,

@lucasvon

Publicado por: lucasvmbs | 9 de agosto de 2012

Não tenho orgulho do Brasil nas Olimpíadas

O dominicano Felix Sanchez, aos prantos durante o Hino de seu país

Não torço contra o Brasil. Via de regra até torço para nossos conterrâneos nos jogos olímpicos. E, confesso, em casos específicos chego a ficar nervoso e vibrar com o resultado. Mas, mesmo com a conquista de alguma medalha de ouro, NUNCA sinto orgulho do Brasil ou de ser brasileiro nesses momentos. Nunca.

O mérito é todo dos atletas, seja lá qual for a modalidade. O Brasil não tem NADA a ver com isso. Nosso país sequer consegue oferecer saúde e educação à população, que dirá oportunidades para as pessoas desenvolverem seus talentos no esporte. Com certeza temos meninos brasileiros que nunca viram uma piscina na vida que poderiam ser os novos fenômenos olímpicos. Mas serão traficantes, engraxates, operários. Com muita sorte serão trabalhadores de classe média. E aí vão conhecer uma piscina, com uns 30 anos de idade.

Não precisamos ir tão longe. Eu, filho de pais de classe média, com passagem por colégio e faculdade particulares, nunca peguei um dardo na vida. Não faço ideia de como os caras conseguem saltar mais de 2m de altura, desconheço qualquer fundamento do arremesso de peso e, mesmo com 1,86m – o que é uma boa envergadura para a maioria dos esportes – não tenho boa noção de praticamente nenhum deles, fora o futebol. E se eu fosse um fenômeno em alguma dessas áreas? Jamais saberemos.

Um país que encontra dificuldades para sanar problemas BÁSICOS, que comprometem até mesmo a VIDA de sua população, nem teria como se voltar a um projeto espetacular de incentivo ao esporte. Deveria, mas é compreensível que não o faça. Compreensível, mas lamentável. Ou alguém acha que EUA e China lideram o ranking de medalhas porque a GENÉTICA de seu povo é diferenciada?

Os brasileiros que fazem bonito lá fora conseguem tais feitos APESAR do país em que nasceram. O Brasil faz de tudo pra eles não estarem lá, brilhando num pódio. Aliás, o Brasil já faz pouco para eles estarem alimentados, educados, sadios, VIVOS. Muito menos superando atletas de todas as outras nações. Mas temos verdadeiros guerreiros que superam essas probabilidades com muita força de vontade, talento e sorte. Uns sofrem mais, outros têm o privilégio de nascer num berço de exceção no país, mas todos têm um caminho árduo pela frente.

Depois que se consagram, chove patrocínio e sorrisos interesseiros. Mas até chegar lá, é muito perrengue. Condições de treino inadequadas, vários ônibus lotados pra chegar em casa, estrada esburacada, risco de assalto no trajeto, e por aí vai. Mas eles fazem tudo isso e superam nações que incentivam o esporte de forma competentíssima. Heróis. Tenho orgulho deles, do João, da Maria, mas não do Brasil. O mérito é deles. Só deles.

Quase morri torcendo pelas gurias do vôlei nas quartas-de-final contra a Rússia. Um jogo épico. Árbitro errando contra, jogo equilibrado, russas começando na frente, enfim, histórico. Mas por que eu torcia por elas? Talvez pelo senso de proximidade. Tínhamos muita coisa em comum. Todas elas falavam o mesmo idioma que eu, conheciam o Faustão, já cantaram “aí eu me afogo num copo de cerveja, que nela esteja minha solução” num videokê, enfim, por essas idiotices. O último saque da partida foi da Fernanda Garay, porto alegrense como eu. De repente já esbarrei com ela numa boate, ou pedi as horas pra ela no Parque da Redenção. Já é o suficiente para conquistarem minha torcida. O Brasil não tem nada a ver com isso.

E o Brasil não é o único. O dominicano Félix Sanchez conquistou o ouro nos 400m com barreiras e SE LAVOU em choro na hora da premiação. Soluçava. O estádio inteiro se comoveu com seu pranto e ficou de pé. Ele não chorava porque o Hino de seu país tocava no momento. Ele chorava POR ELE. Pela história dele. Pelas dificuldades que enfrentou para chegar lá. Chorou porque sua avó tinha morrido às vésperas da última Olimpíada, fazendo com que seu desempenho na competição fosse ruim. Chorou porque acabara de tirar uma foto dessa mesma avó de dentro do “maiô”. Chorou porque está com 35 anos, sabia que tinha que superar também a idade e que essa poderia ser sua última chance. Chorou por vários motivos. Mas garanto que não chorou por gratidão à República Dominicana. Não chorou aliviado por ter conseguido retribuir a tudo que seu país lhe proporcionou. Pois esse tudo provavelmente foi quase nada.

E aí, antes do jogo com a Rússia, em outro duelo da seleção feminina de vôlei, uma torcedora brasileira ostentava uma bandeira do Brasil com os dizeres: “DILMA SHOW TO MERKEL HOW TO DO IT”. Algo como “Dilma, mostre à Merkel como se faz”. Merkel é a chanceler alemã. O que será que a Dilma poderia ensinar a ela? Na Alemanha, até onde eu saiba, os impostos voltam integralmente ao povo. Saúde de primeira, educação a todos, ruas lindas e limpas, etc. Fiquei com vergonha da bandeira. O Brasil ganhou o jogo e fiquei pensando que tinha alguém morrendo naquele momento numa fila do SUS. E um lado meu ficou triste com a vitória brasileira. Tipo, “foda-se esse jogo imundo”.

Ah, mas somos bons no futebol”. Claro. Além de ser uma paixão nacional, o Brasil é um país populoso e abençoado com todos os biotipos possíveis de pessoas. Fatalmente isso se transforma em seleções competitivas. E isso prova que tínhamos potencial para ser uma potência olímpica. Mas falta todo o resto. No futebol somos bons porque qualquer latinha no chão já vira bola. Somos bons, mais uma vez, APESAR do Brasil.

Saudações “canarinhas”,

Lucas von.

Publicado por: lucasvmbs | 2 de fevereiro de 2011

Toca pra quem sabe

Ontem, 1º de fevereiro, foi dia do publicitário. Falando com um amigo sobre o mercado de trabalho, me dei conta de uma coisa bisonha. E não deve ser exclusividade do mercado publicitário, acredito que deva ocorrer em vários outros segmentos: a falta de empenho de empregadores para garimpar bons empregados.

Provavelmente todo mundo conhece alguém muito talentoso desempregado. Ou alguém muito diferenciado que está numa função abaixo de suas capacidades. E isso não significa que vagas boas estejam escassas. Pelo contrário, elas existem e estão abertas, ou ocupadas por profissionais não tão brilhantes.

O mercado é um lixo pra buscar novos talentos. Na publicidade é pior: tem que elaborar um portfólio espetacular, ir arrumado na entrevista, ter carisma, torcer para que o entrevistador tenha simpatizado contigo, e tudo isso para TALVEZ te chamarem pra mais uma conversa. Eu já sou meio contra essa coisa de análise friamente por portfólio, currículo, etc. Acho que uma boa conversa de meia hora já me faria conhecer muito mais a pessoa, mas ok, isso é outro papo.

A questão é que um rapaz talentoso tem que se matar pra conseguir entrar numa agência grande. É como se o Pelé tivesse que se esforçar ao extremo pra conseguir jogar num time. Como se ele tivesse que fazer 20 testes pra provar que é bom mesmo. E ainda correria o risco de ser dispensado, caso no teste final protagonizasse o lance do “gol que o Pelé não fez”.

Fico indignado com isso porque o Pelé foi melhor para o Santos do que o Santos para o Pelé. Se o Santos o rejeitasse, ele jogaria em qualquer outro time e seria igualmente genial. Com profissionais qualificados é o mesmo: as agências agem como se tivessem fazendo um favor ao contratar alguém, sujeitam os candidatos aos mais severos critérios de avaliação. No fim, quando aprovados, os pobres funcionários vibram: “consegui! Estou na Agência XYZ!”. Como se fosse uma vitória. Mas na verdade a agência XYZ é quem deveria vibrar por ter contratado o sujeito talentoso em questão.

Enfim, sempre vi nesse meio publicitário muita onda, muito ego, muita dificuldade pra se entrar no mercado. Se a pessoa tem um portfólio maravilhoso (que pra mim não diz muita coisa), tem experiências em outras agências, e ainda por cima tem alguém pra lhe indicar, ainda assim o caminho será árduo. Sem algum desses itens então, esquece. Por mais que tu sejas um Pelé. Esquece. E seja agência, vaga pra marketing de alguma empresa, ou o que for: provavelmente nem vão responder ao teu e-mail esmerado que enviaste com o currículo em anexo. Consideração zero.

Já que estou usando o exemplo do futebol, por que as agências não criam algo como as categorias de base? Mesmo intuito: garimpar talentos. Sei lá, cria uma agência júnior, pra atender a clientes microscópicos, ou causas sociais, e coloca uma gurizada lá que está entrando na faculdade. Sem muito teste, é só se inscrever e responder a meia dúzia de perguntas. Pronto. Aí deixa um pessoal acompanhando essa galera e avaliando o trabalho deles. Os que se destacarem entram na agência. Algo do tipo, sei lá, to viajando aqui.

Muitos diriam que é um gasto excessivo. Pode ser. Mas de repente, com isso, tua agência terá o maior número de talentos por metro quadrado no país, e isso irá gerar mais e mais receita pra ti num futuro não muito distante. O talento é o principal bem de uma agência de propaganda, e ele é apenas alugado. Não é o prédio e nem os computadores. O que gera dinheiro para a agência são as mentes criativas. E só se investe em prédios e computadores melhores. Não tá errado isso?

Abraço!

PS: eu contrataria esse cara do vídeo abaixo. Nenhum portfólio me convenceria tanto, talvez.

Publicado por: lucasvmbs | 10 de dezembro de 2010

Três vidas

Esses tempos me dei conta de que um ser humano que constitui família e morre na terceira idade, ao longo de sua existência possuiu três vidas. São três momentos bem distintos, onde a vida da pessoa muda totalmente.

Sim, não sou nenhum gênio. Não é à toa que chamam a velhice de TERCEIRA idade. Não estou descobrindo a roda. Mas o que quero dizer é que essas três fases são talvez muito mais distintas uma das outras do que imaginamos.

Tá, a nossa primeira vida é a infância, essa é fácil. E os motivos são óbvios: nossas percepções de mundo são outras, nossa cabeça é outra, vivemos em meio a descobertas constantes, e até mesmo nossa noção de tempo é diferenciada. Há inclusive um estudo provando que o tempo na infância passa mais devagar, e existem motivos para isso. Mas não vem ao caso.

Enfim, é bem fácil aceitar que nossa infância era outra vida. Éramos outras pessoas. Até nossos pais eram outras pessoas, sob nossa ótica. Ao olhar para o Lucas-criança eu vejo algo muito distante. Não parece que era eu. Não me lembro de quase nada, não consigo mais sentir coisas que sentia na época. Enfim, é outra vida.

A segunda vida é a maior delas. É a que liga as duas pontas. Começa na adolescência e vai até o princípio da velhice. É toda a fase de adulto, onde mais coisas acontecem em nossa vida toda. Essa fase não tem muito mistério: é o que recheia a biografia de qualquer mortal. Onde as coisas acontecem.

Bom, aí vem a terceira vida. Foi motivado por ela que resolvi escrever isso. Esse último pedaço da vida da maioria das pessoas não tem nada a ver com perda de lucidez. Não estou falando dos casos em que o idoso fica gagá e passa a viver em outra dimensão, assumindo literalmente uma nova (e terceira) vida. Não. Essa terceira fase vale pra qualquer pessoa de idade avançada que tenha constituído família. Explicarei.

Esses tempos eu estava na casa da minha vó e me dei conta de algo assustador. A casa estava cheia. Além da vó, lá estavam seus netos, filhos, noras e genros. Essa é a família da minha vó. As pessoas mais próximas que ela tem no mundo. Me dei conta de que todas essas pessoas que hoje são a família dela NÃO EXISTEM AINDA NA MINHA VIDA. O que eu tenho hoje como família, minha vó não tem mais. Ela não tem mais pai, nem mãe, tampouco avós, nem marido, nada. Só alguns irmãos, que moram cada um numa cidade.

A minha vó já está na terceira vida. Com novas pessoas, novas perspectivas, tudo novo. Aquilo que nós da segunda etapa temos como referência de família, onde buscamos amparo e com quem vamos comemorar nosso aniversário, vai começar a sumir gradativamente. Provavelmente sendo substituídos por figurinhas novas que irão surgindo. Quando a maioria desse time tiver sido substituído, seja bem-vindo: você está na terceira vida.

 

 

Aquele abraço.

Publicado por: lucasvmbs | 3 de dezembro de 2010

Comentários Blog Tricolor

Enquanto o problema nos comentários do Blog não é solucionado, deixe sua mensagem aqui.

Foi uma forma que encontrei de manter o pessoal dialogando.

Saudações azuis.

OS COMENTÁRIOS DO BLOG VOLTARAM AO NORMAL! VALEU, PESSOAL! E desculpem o incômodo.

Publicado por: lucasvmbs | 22 de novembro de 2010

Todo mundo é vítima

Na maioria dos filmes e novelas algum personagem é construído para ser o grande vilão da trama. Normalmente esse cara é bem resolvido, esclarecido, bem apessoado, mas um grande filho da puta. Normalmente ele teria tudo pra ser um bom sujeito, mas simplesmente tem um caráter podre, uma índole horrível e uma maldade no coração. Esse é o vilão, que todos odeiam e torcem contra.

Mas na vida real não é bem assim que funciona. Quase todo mundo tem nuances de bom moço e de sacripantas, com doses maiores ou menores de cada extremidade, dependendo da pessoa. Quase ninguém é um total santo ou um total monstro.

E a imagem do vilão ou mocinho que fazemos das pessoas da vida real muito tem a ver com o contexto em que a situação nos é apresentada: se a gente for acompanhar um documentário no Animal Planet sobre a vida dos lépidos coelinhos da savana africana, vamos ver o filhotinho nascer, crescer, aprender a se virar sozinho, seremos cativados pelo bichinho, e quando aparecer uma leoa malvada querendo devorá-lo, torceremos muito para que ele escape. Mas se o documentário fosse sobre o pequeno e fofo leãozinho que nasceu, cresceu e está aprendendo a caçar sozinho, torceríamos muito para o matreiro felino devorar o maldito coelho safado.

Assisti esses dias àquele filme Última Parada – 174, que conta a história do rapaz que fez reféns num ônibus do Rio de Janeiro e acabou assassinando uma moça e foi assassinado em seguida. Os populares em volta da confusão queriam linchar o rapaz, com uma raiva até compreensível, pelo contexto e panorama que lhes foi apresentado. Mas vendo o filme, entendendo toda a história de vida daquele sujeito e até mesmo entendendo o contexto e os acontecimentos daquele dia na vida dele, o sentimento que dá é de pena, e não de raiva. Na verdade ele era uma vítima, e não um vilão.

E na vida tudo é assim. Na política, por exemplo, o pessoal da esquerda vocifera contra o pessoal da direita, e vice-versa. Alguns mais radicais se odeiam, brigam, discutem. Acham que são os mocinhos e os outros são os vilões. Mas na verdade os dois querem o bem geral. Os dois lados têm opiniões que visam aplicar um bem-estar e uma justiça social maiores. Mas cada um com visões distintas de como se chegar nesse fim. Ninguém é mau. No fundo, todos são bem intencionados. Comunistas e capitalistas convictos defendem o que julgam ser o MELHOR para todos.

Discussões de família, ou entre amigos, e até mesmo no trânsito, estádio de futebol, etc: tudo gira em torno de mal entendidos. Quase ninguém é vilão. A culpa às vezes é de uma palavra mal colocada, mal interpretada, um gesto infeliz ou uma atitude por reflexo, impensada. Outros desentendimentos começam porque alguma das partes teve uma criação diferente, com crenças diferentes, adota hábitos incompatíveis com outrem, e assim por diante. As brigas familiares são as melhores de se analisar isso. Normalmente as duas partes são vítimas, e não há vilões. Todo mundo se ama e quer o bem do outro, mas alguma merda acontece e o pau quebra. O rapaz do 174 queria ser rapper, também queria o bem de todos, a começar por ele. Não gostava de ser bandido. Mas algumas merdas aconteceram, e ele acabou naquele ônibus naquela tarde/noite.

O filme Tropa de Elite 2, do mesmo diretor do Última Parada – 174, mostra muito bem isso. Dois caras que têm tudo pra serem inimigos, um intelectual de esquerda e um comandante geral do BOPE com ideais quase fascistas, acabam virando amigos, mesmo com visões completamente diversas, simplesmente pelo fato de serem dois caras bem intencionados, que se deparam, praticamente sozinhos, com uma guerra contra toda uma merda maior que acontece no cenário do filme (e do Brasil).

Claro que não sou idiota. Sei que muita gente é vítima total da vida e consegue manter uma conduta regrada e honesta. Verdadeiros heróis. Claro que também tem muito babaca que nasceu em belas famílias e acabou se tornando um sacana. Mas são exceções, e mesmo assim, nesse segundo caso, esse cara provavelmente deve ser vítima de algum desvio na criação, ou trauma de infância, ou simplesmente “desfavorecimento cerebral” (burro). Mas em algum ponto ele provavelmente será vítima, antes de ser vilão.

E é claro que se entro em casa armado e vejo um cara estuprando e matando minha mãe e minha irmã dou uns belos tiros no vagabundo e não vou querer saber qual sua história de vida e o que o levou a chegar até lá. Mas é que sou uma vítima do instinto primitivo humano, que eventualmente tem seu lado selvagem ativado.

E sei também que não existem coelhos na savana africana, e se você não se ligou nisso, é uma vítima do péssimo ensino brasileiro.

Publicado por: lucasvmbs | 12 de novembro de 2010

Evite parasitas

Existem pessoas parasitas. Evite-as. Parasitas do nosso alto-astral, da nossa energia positiva, da nossa alegria. Negativismo é contagiante. Evite pessoas negativas.

A cada dia que passa fico mais impressionado com o poder do psicológico em nossas mentes. Somos realmente bichinhos previsíveis e programáveis: basta dar o estímulo certo e teremos a resposta esperada.

Na faculdade (publicidade e propaganda) lembro que tive algumas cadeiras de psicologia, mais voltadas à psicologia do consumidor, e o professor deu alguns exemplos de testes feitos nessa área que são realmente incríveis. Não vou contar nenhum, pois são meio extensos e complexos para narrar por escrito. Mas posso falar de um que ouvi na academia.

Um instrutor me contou que fizeram testes com creatina. Pra quem não sabe, é um suplemento que, resumindo, serve pra dar mais energia. A pessoa que toma tende a ter mais força, elevar as cargas mais rapidamente e, por conseqüência, aumentar a massa muscular mais rápido também.

Pegaram pessoas que já malhavam e separaram em 3 grupos: para um deram creatina por um tempo, para outro não deram nada, e para o último deram placebo, ou seja, pílulas de farinha, sem efeito algum, mentindo que era creatina.

Resultado: o grupo que tomou creatina foi o que apresentou maior crescimento muscular nesse período, o que era um tanto óbvio. Mas o interessante é que o grupo que tomou placebo ficou em segundo lugar, obtendo resultados melhores do que aqueles que não tomaram nada.

Só pelo fato de achar que estavam com mais energia, o pessoal do placebo sentiu-se mais capaz, cansou menos, teve mais sangue no olho. Psicologia pura. E os exemplos não param por aí: no futebol o número de vitórias do time que joga em casa é muito maior. Os jogadores costumam ganhar mais pelo fato de terem uma torcida em volta apoiando.

Mas tudo isso pode ser negativo. A gente pode ser psicologicamente afetados por pessoas que sugam a vibe positiva dos outros. Sabe aquela pessoa sempre pra baixo, achando que tudo vai dar errado, debochando dos teus delírios, dos teus sonhos? Evite-a. Aquela pessoa que balança a cabeça e faz cara de desdém quando tu resolves rir de algo idiota. Aquela pessoa que não entende como tu pode se divertir com tão pouco, ou fica te criticando por falar besteira.

Evite essas pessoas a todo custo. Elas têm o poder de te contagiar. Se tu estiveres em um dia muito feliz, assoviando e chutando pedrinhas, dançando sem música, e encontrar esse tipo de pessoa, fuja. Mesmo se tu tiveres uma ótima notícia para compartilhar com essa pessoa, ela não ficará eufórica. Vai dizer no máximo um “legal” e irá mudar de assunto, ou tentar achar algum defeito e alguns poréns para essa notícia boa.

Essas pessoas, em sua grande maioria, são frustradas com algo. Talvez com a vida. Não deixe que elas te puxem para esse mesmo buraco negro. Conviver com elas é um perigo, por mais que você seja uma pessoa muito alto-astral. É que o negativismo delas é contagiante. E o poder da psicologia… Bem, vocês sabem.

Agora abra o Youtube, ponha uma música muito boa e cante junto, bem alto. E foda-se o mundo. A alegria também é contagiante.

 

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