Publicado por: lucasvmbs | 25 de julho de 2013

O que realmente importa

Esse texto é meio clichê. Na teoria, todos sabem o que realmente importa. Mas vamos lá. Adoro clichês.

Minha vó era motivo de piada por não querer incomodar. Pra ela tudo tava bom. Qualquer cantinho pra dormir tava excelente, qualquer coisa pra comer tava ótimo. Podia ficar esperando na rodoviária, podia ficar esperando sozinha, podia não esperar e ir de táxi. Tanto faz, ela só não queria incomodar. Filhos e netos se divertiam com isso. “Hoje a mãe/vó vai dormir na casinha do cachorro pra não incomodar“.

Libertadores 2003, quartas de final. Independiente de Medellin 2 x 1 Grêmio, na Colômbia. A vó Célia, moradora da gelada Bom Jesus/RS, por algum motivo estava em Porto Alegre nesse dia. Por algum motivo estava na minha casa. Só nós dois. Eu, fanático desde sempre, nervoso com o jogo. A vó, gremista desde sempre, acompanhando a partida comigo pela TV. Sem um pingo do meu nervosismo, mas com um interesse aparentemente grande pelo evento. Comentava, perguntava, até xingava. Celinha copera y peleadora.

Lá pelas tantas o Grêmio começou a perder o jogo e a classificação, e meu humor, que já estava na altura do joelho, desceu para o dedão do pé e fazia força para invadir o apartamento do vizinho de baixo. Nessas horas, os fanáticos sabem, qualquer comentário meramente maldoso, idiota ou inconveniente nos irrita profundamente. E os fanáticos sabem também que, nessas horas, qualquer comentário é potencialmente maldoso, idiota ou inconveniente. Aí os jogadores do Grêmio começaram a chutar algumas bolas por cima do gol adversário e a vó me perguntou, várias vezes: “Lucas, por que eles não chutam DENTRO do gol? Eles não sabem que é ali que tem que chutar?

Ela perguntava séria, não estava brincando. Queria realmente saber o motivo pelo qual eles não faziam o que lhe parecia tão óbvio. Pensando agora é engraçado, mas no dia me irritava. “Maldita hora em que a vó foi parar aqui em casa nesse dia, nessa hora”. Tudo que eu queria era ver meu jogo quieto e amargar minha eliminação sozinho. Ou com alguém que me entendesse naquele momento. Alguém que entendesse de futebol. Entendesse, pelo menos, minha irritação à flor da pele.

Dez anos se passaram. Quarta-feira, 24/07/13, acordo com um soco no estômago: minha irmã me liga aos prantos dizendo que a vó Célia faleceu. Do nada. Inesperadamente. Infarto fulminante. E agora? Quem vai me ligar no meu aniversário dizendo que tá rezando por mim? Quem vai rezar por mim noutros momentos importantes da minha vida? “Hey, Lucas, tu não é agnóstico?” Sou sim. Mas a reza da Celinha funcionava, acreditem em mim.

No caminho até Bom Jesus fui pensando: “imagina se a vó liga para todos os irmãos, filhos, netos, demais parentes e amigos e diz que tá carente”. Pede para que todos compareçam na sua casa para um almoço. Ela só quer um abraço de cada um. Em plena quarta-feira. Imagino as respostas. “Como assim, mãe? Não posso largar tudo hoje do nada. Tenho que trabalhar, tenho que blá blá blá, tenho que bló bló bló“. Eu diria que talvez 3 convocados fossem, num cálculo deveras otimista. Talvez ninguém fosse. Mas aí a vó morreu. E aí todo mundo foi. Morando longe, morando perto, com filhos, com trabalho, com chefe, com uma vida toda pra administrar. Todos foram. Deram seu jeito. O ser humano é engraçado. Pra dar um abraço na Celinha viva a comoção não seria minimamente semelhante. E o incrível é que dar atenção e valor à pessoa em vida é o que mais importa. Somos estranhos.

E justo a Dona Célia, que não gostava de incomodar, se foi justamente no dia da Final da Libertadores. Talvez pra nos mostrar o que realmente importa. Ninguém estava preocupado com a Final da Libertadores. Estávamos, finalmente, preocupados com o que realmente importa. Inclusive já sentindo saudades do que realmente importa.

“Imagina se é o Grêmio na Final da Libertadores. E imagina se o Grêmio perde essa Final de Libertadores”. Por mais fanático que eu seja, lhes digo: pouco me importaria. Claro que me importo com o Grêmio. Ia olhar o resultado do jogo no celular. Óbvio. Amo o clube. Mas é diferente. Não se compara. E parece que a gente precisa tomar esses tapas na cara da vida pra ver o óbvio, o que realmente importa. E o que realmente importava ontem, pra mim, não era um jogo de futebol. Por mais importante que ele fosse. Por mais que o Grêmio estivesse jogando. Seria importante pra mim, isso sim, se o Grêmio estivesse jogando e a vó Célia estivesse ao meu lado perguntando: “Lucas, por que eles não chutam DENTRO do gol? Eles não sabem que é ali que tem que chutar?

A vida é um baita clichê. Óbvio e simples. Mas, incrivelmente, às vezes não vemos o que realmente importa. Ou até vemos e sabemos exatamente o que temos que fazer, mas chutamos pra fora, sei lá por quê. Sei lá por quê, vó.

Vai com Deus, Celinha.

Abraço,

Lucas.

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Responses

  1. Muito bom, parabéns!

  2. Meus pesames Lucas. Apenas digo que li este bonito texto e amanhã irei na casa dos meus avos, abraçar eles. Isso é o que realmente importa.

  3. Meus sentimentos, incrível como a um mês atras eu pensava exatamente isso, justamente com minha avó, enferma, quase indo, e parentes de todas as partes vindo visita-la, esperando já pelo pior, felizmente ela ainda esta entre nós, mas é incrível como só depois da morte, damos valor ao que realmente importa

  4. Baita texto cara. E força pra família!

  5. Que baita texto, meu velho! Me identifiquei pra caralho.. Uns dois anos atrás perdi a minha avó que também se chamava Célia. Força aí, meu!

  6. Gostei muito!

  7. Nos leva a ver como só damos valor depois que perdemos… Força Lucas

  8. Chorando e muito!!!

  9. força amigo….

  10. Não sei o que dizer, nesta hora é difícil encontrar palavras, ainda mais para uma pessoa que sabe o que fazer com elas. Força para ti e tua família, que Deus conforte o coração de vocês. Eu confio que tua Avó Célinha esteja em um lugar lindo! Cliché também mas de coração!
    Bjs!
    cHris

  11. Muito bom teu texto cara, chorei aqui, força e paz

  12. Mto bonito o texto Lucas! Temos q nos atentar ao que realmente importa! Q sua avó vá em paz. Força para vc e sua família.

  13. Meus sentimentos, já passei por ambas as situações, de perda de entes queridos e de atrito com eles por bobagens do futebol, entendo exatamente o que estas passando…

  14. Lindo texto, Lucas. Me emocionei bastante. Perdi vó, que amava como mãe há quase 10 anos e perdi pai, vão fazer 2 anos no domingo. Te confesso que depois que perdi o pai, comecei a passar muito mais tempo com a minha família, convivendo com as pessoas que amo, apreciando o que realmente importa, que é o amor que temos entre nós. Futebol? Continuo sendo muito fanática pelo Grêmio, amo muito, mas hoje sei que existem coisas muito maiores que um jogo de futebol.

    Força e um abraço!

  15. Força. Tu não os vê tu não os toca, mas estão “SEMPRE” presentes.

  16. Tá coberto de razão. Meus pêsames.

  17. Baita texto, Lucas… não dá para não se tocar com estas palavras… não se identificar e reavaliar nossas ações.

    Eu perdi um avô muito próximo, morava ao lado da minha casa, eu tinha contato diário com ele… gostava dele como um segundo pai.
    Faz alguns anos que ele nos deixou, exatamente no dia que o Grêmio disputava a final de uma Copa do Brasil contra o Cruzeiro (e perdia!)…
    Obviamente, minha tristeza foi tanta que eu, gremista fanático, só fui lembrar da final alguns dias depois, sabendo que havíamos perdido…
    Naquele dia triste, só o que realmente importava estava na minha cabeça e no meu coração. Sem dúvida.

    Meu avô partiu de forma inesperada tb, fulminante… deixou muita saudade.

    Força, cara!

    André Dalpiaz

  18. Meus sentimentos! Ótimo texto! Bora voltar ao trabalho, (que diga-se de passagem, tu realiza muito bem, gosto muito do seu jeito de colocar as situações vividas pelo Grêmio), só o dia a dia pra aliviar dores assim…
    #força! Saudações azuis, pretas e brancas!!!

  19. Baita texto, guri. Deu pra refletir, e muito!
    força! ^^

  20. Lucas, nunca li alguma coisa que traduzisse tanto o que penso e sinto! Esta maneira “estranha” que nós “seres humanos” temos de deixarmos passar momentos em que poderíamos conviver e demonstrar afeto enquanto as pessoas que amamos estão vivas me incomoda muito, mas parece que não aprendemos nunca… Mas quem sabe agora a Celinha nos possibilite mais esta aprendizagem! E que realmente possamos aprender!!! Bjo, meu querido!

  21. Muito bom Lucas, é bom descobrir o que realmente importa!Sinto muito pela tua vó, deve ter sido uma pessoa bem especial. Eu acabei de chorar com as tuas palavras. bjo e força…..Vera

  22. Meus sentimentos Lucas pela sua perda.
    E agradeço por você compartilhar a sua dor,sua percepção sobre esse momento tão difícil ( sei porque já perdi minhas avós) porque esse relato fez me parar e pensar sobre o que realmente importa?! e tenho certeza que fez o mesmo com as outras pessoas que o leram.
    Perdemos momentos com a família,amigos as vezes por causa do trabalho ou qualquer outra bobagem sem saber que aquela oportunidade talvez não volte mais.
    Que a grande Gremista Celinha esteja no azul celeste do céu e que Deus conforte e console você e sua família.
    Abraço

  23. Cara, é a pura verdade.
    Abraço

  24. Lucas, meu nome é Gabriel Pontes, gostaria de transmitir minha solidariedade a ti e a toda a tua família. Ácho importante dizer que também sou um torcedor fanático, contudo, não temos a mesma predilção: eu torço para o Sport Club Internacional, gostaria, porém, além dos pêsames já citados, parabenizar-te pelos excelentes textos acerca do teu club do coração. Embora haja um princípio entre nós chamado rivalidade, a minha admiração pelo teu magnífico trabalho transcede tal obstáculo. Por derradeiro Lucas, desejo-te que, neste momento de extrema tristeza e reflexão, sejas como teu time foste em diversos momentos de sua história: forte, aguerrido, valente, corajoso e bravo.

    • Porra, lindo isso. Sem sacanagem.

  25. Meus sinceros sentimentos, Lucas! Lindas palavras.
    Um abraço.

  26. Meus Pêsames Lucas. Baita texto e força para a família.

  27. Perder uma avó querida dói muito e a saudade é eterna. Fica mesmo a lembrança de todos momentos que passamos juntos. Muita força pra ti e para toda família, neste momento tão difícil. A Tia Célia sempre foi um amor com todos e o carinho dela ficará com a gente.

    Acho muito importante a gente falar sobre o que realmente importa. Família é tudo! Esta vida passa muito rápido e infelizmente nos separa das pessoas que mais amamos.

    Vamos viver e demonstrar nosso amor hoje!

    Abraço forte

  28. Lindo, Lucas! Sem palavras…Te amo, te admiro, sinto muito orgulho de você! bjos…

  29. Que texto irado.

  30. Valeu demais o texto, mano!

  31. Meus pêsames meu velho, sei como é perder um avô. Força pra todos aí!

  32. Meus sentimentos Lucas. Força pra família, e viva a Dona Célia, que entre outras coisas boas que certamente fez ajudou a criar alguém capaz de transformar um momento de tristeza em palavras tão certeiras. Abraço.

  33. Desde que começou a escrever o blog do grêmio, sempre gostei de seus textos, mas neste é a primeira vez que entro e tenho que dizer que me identifiquei muito…a pouco mais de um ano perdi meu avô, alguém excepcional, e até hj me culpo de não ter passado mais tempo com ele, e posso dizer que isso me fez ver oq realmente importa em minha vida, pois, apesar de obviamente estarmos errados, insistimos em dar valor a o que não temos, ao invés de valorizar as coisas e, principalmente, as pessoas ao nosso lado, porque depois que se vão, infelizmente não voltam jamais…
    Meus mais sinceros sentimentos, Lucas, força para você e sua família.
    Um abraço.

  34. Meus pêsames, cara! Mas é bem isso mesmo! E sei o que tu passou pois eu passo algo semelhante, poi eu moro perto de Bom Jesus e minha mãe mora perto de Porto Alegre, em Montenegro. E por mais que agente queira não conseguimos estar toda semana com ela, então tentamos nos revezar e ir ao menos uma vez por mês, ver ela. Não é o certo mas a vida é assim…

    Também sou gremista, hoje infelizmente mais realista do que anos atrás. Colocando todas as fichas neste Riveros, que ele seja o Xerifão da nossa zaga, estilo Dinho ou Sandro Goiano. E que o Marcelo assuma o gol, pois ele já mostrou ser merecedor. E que o Ze possa se preocupar mais em ajudar a atacar do que a defender. Mas acredito que vamos acabar comemorando no máximo uma vaga na Libertadores!!

    Gostei de saber que sua avó morava em Bom Jesus, região dos Campos de Cima da Serra. Eu trabalho à dez anos em Jaquirana, 35 km de Bom Jesus. Realmente estava muito frio na quarta feira, em torno de -4º.

    Força e coragem. abraços

  35. Gabriel Pontes, destes um show agora.

  36. LUCAS, PENA QUE SÓ SE DESCOBRE ISTO, QUANDO JÁ NÃO PODEMOS MAIS ABRAÇAR AS PESSOAS IMPORTANTES QUE FAZEM PARTE DA NOSSA VIDA, POR MAIS QUE SE LEIAM TEXTOS COMO ESTES. FORÇA.

  37. Lindo texto Lucas.. sei como vc está se sentindo.. já passei por isso e quando a gente perde que todas as lembranças boas vem a tona.. Sinto muito mesmo pelo o que aconteceu, mas tenha certeza que ela está num lugar bem melhor do que aqui.. Força!

  38. Lucas, é incrível como tu consegue descrever a Celinha. Parabéns pela sensibilidade. A Celinha realmente deixará saudade pelo seu jeito único de ser. Beijos desta dinda que te admira muito.

  39. Força cara!


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